Teologia como Cristologia em Marcos

Não há como buscar as fontes necessárias para a configuração de uma teologia marcana sem se deparar com o papel significativo da obra de Jesus presente nos textos evangélicos. Os Evangelhos em sua totalidade sempre põem em destaque a figura emblemática de Jesus com dotes relevantes que o identificam, na maioria de suas colocações, ou como um rei ou profeta. Quando se faz uma pesquisa do texto de Marcos percebe-se significativas diferenças na forma como o autor focaliza a pessoa de Jesus que por fim, segundo diversas sistematizações que vão resultar numa cristologia marcana, é apresentado não com características suprasagradas, alienado como se pensa em muitos meios acadêmicos extra-teológicos. Marcos revela uma face de Jesus não tão nítida, obscura, e divergente teologicamente dos outros Evangelhos no que se refere a própria cristologia. Para isso, como será apresentado, Marcos tenta fincar a figura de Jesus através do que o mesmo se denominou: “Filho do Homem”. Dentro dessa linha de pesquisa faz-se interessante observar como Marcos se utiliza dos títulos empregados a Jesus para identificá-lo com figuras pretéritas como os profetas e nesse sentido Oscar Cullmann traz um forte contributo analisando esses títulos que são empregados por Jesus nos Evangelhos.
O Cristo de Marcos não era, como foi posto a pouco, um alienado judeu que perambulava pelas cidades palestinas gritando enunciados religiosos aos ventos. Sua mensagem arrebatava multidões por sintetizar de maneira clara e objetiva o que realmente a religião judaica foi convidada eticamente a fazer por Javé, mas que até aquele momento antagonizava tal convite ético. Pode-se perceber que Marcos apresenta Cristo como um critico social, como um oponente significativo à dominação não apenas do império, mas principalmente dos judeus sobre os judeus, da casta religiosa sobre os oprimidos plebeus, pela subseqüente subjugação cultural. Há um forte destaque para a idéia de um messias libertador dos oprimidos e dos pobres dando a entender que o principal papel de Jesus naquele momento era salvar o homem não apenas de forma “sobrenatural”, mas principalmente social. A salvação inicia-se nas ações benfazejas do Cristus caritus, do mestre que ama, que propõe uma nova realidade social. É imprescindível que se tenha essa idéia para melhor compreender o conteúdo teológico de Marcos.
A teologia de Marcos parte dessa cristologia de forte conteúdo social que, de certa forma, impulsionava as comunidades a se comprometerem no cuidado aos espoliados do sistema dominante da época, os romanos. A temática cristologica é perceptível compreendendo Cristo como um enviado de Deus para salvar os homens de sua situação de explorados. Não é a toa que os adeptos da Teologia da Libertação prefiram a mensagem teológica marcana mais que outros evangelhos pela centralidade de um Cristo mais humano e mais revolucionário, mais atento as mazelas sociais. Essa revolta, porém não é algo como o protótipo marxista da Revolução empreendida pelo uso violento da força armada desbancando a burguesia capitalista, mas uma revolta pacífica que se daria pela comunicação de um novo ethos às multidões que entendendo a mensagem transformariam aos poucos a realidade de dominação adquirindo a liberdade através da práxis do ágape.
Chedd Myers em sua obra “O Evangelho de São Marcos” afirma em diversos momentos como a teologia do Evangelho de Marcos perpassa por uma perspectiva crítico-social. A mensagem possui caráter parenético e aos poucos influencia a comunidade a assumirem uma práxis mais ativa dentro do contexto histórico onde estão inseridos. Teologicamente revela-se a configuração de todo um sistema bem intricado que medeia a Cristologia do “Filho do Homem” e sua proposta de salvação através da concretização do Reino de Deus. Pode-se afirmar assim que a Teologia de Marcos é centrada na libertação do oprimido, dos famintos (Mc 6,33), dos pobres (Mc 5,21), dos preconceitos raciais (Mc 4:35-41; 6:45-53).

A Proposta Teológica do Reino de Deus

O Reino de Deus é conceituado de diversas formas, até mesmo pela polissemia que parece apresentar nos textos. Em Mateus o conceito é Reino dos Céus, mas entende-se os dois como unívocos, embora a segunda tenha dado características ideais desse reino proposto por Jesus gerando muitos discursos díspares da original intenção do Nazareno.
Teologicamente o Reino de Deus em Marcos é o clímax da solução proposta por Jesus frente a caoticidade da realidade do status quo. O Reino de Deus é o resultado de uma ação ética que permita a coexistência entre os indivíduos, é o lócus de encontro onde a intersubjetividade ocorre de maneira plena já que os homens aí se entendem como sagrados e essa sacralidade só se adquire vivendo dentro da história de maneira ética, ou seja, sendo mais humanos, aprendendo a coexistir. Essa parece ser um elemento significativo tanto para entender o conceito de Reino de Deus em Jesus como o próprio título que ele emprega a si mesmo: “Filho do Homem”. Ser “Filho do Homem” é assumir a sua plena humanidade diante de suas ações. Dessa forma os ensinamentos de Jesus dentro desse contexto passam a idéia de que só o humano pode salvar o humano através da instituição do Reino de Deus na Terra. Dessa forma entende-se o Reino de Deus como o catalisador da libertação dos excluídos em relação a sua opressão frente a exploração as instituições religioso-judaicas e político-romanas.
Para uma definição de Reino de Deus Myers afirma que em Marcos concretiza-se uma nova ordem social na aplicação do Reino. A realização do Reino de Deus na concretude compreende, como coloca Myers, transformações interessantes. O Reino como Reconciliação Racial (4,35-41; 6,45-53). Esses textos referem-se a duas viagens que Jesus fez. Uma para Gerasa (4,35-41) e outra para Betsaida (6,45-53). Myers demonstra, através de uma pesquisa exegética dos textos, que essas perícopes representam muito mais que uma simples descrição de viagens missionárias. Jesus em ambos segue sempre para “o outro lado” que na verdade era a localização dos gentios. Jesus deseja atravessar o mar (lago) a fim de englobar a raça gentílica a proposta do Reino de Deus. Com isso a intenção não é outra se não fazer a reconciliação racial com os outros povos destituindo da cultura judaica o preconceito de inferiorização de outras culturas. Em ambas as narrativas surgem tempestades que simbolizam oposição “mítica semítica das forças cósmicas do caos e da destruição (como em 5,13; 9,42; 11,23)”. a essa reconciliação que é vencida quando Jesus chega do “outro lado” do mar (lago). O Reino de Deus configura-se num espaço para todos, onde todas as culturas se encontram sem serem estigmatizadas, um espaço para o pluralismo cultural. Pode-se dizer que a teologia que surge dessa narrativa torna-se uma teologia da despreconceitualização, uma teologia de inclusão total do outro em sua cultura e composição étnica (não mais exclusividade da etnia judaica).
O Reino de Deus surge também como Satisfação (Mc 6:33-44; 8:1-9) e isso é importante na compreensão teológica de Marcos já que a mensagem passada pelo evangelista é a de uma partilha justa que resulta na prática de uma justiça mais concreta. A narrativa conta a história de Jesus no deserto pregando ao povo judeu. Num momento dramático os discípulos percebem que a grande multidão não se alimentava desde a saída da cidade mais próxima. Jesus pedi aos discípulos que alimente a multidão, mas os mesmos dizem que não há alimento para tantas pessoas. Então ele pede que reúna tudo o que havia ali para comer. Nesse momento da perícope ocorre o clímax do milagre da multiplicação. Myers diz ser o milagre não há multiplicação dos alimentos, mas a partilha em oposição à economia de consumo autônomo no mercado citadino. A mensagem na verdade tem como objetivo mostrar a comunidade de o milagre da multiplicação pode ser realizado todos os dias no compromisso diário da partilha, do repartir o comum, do comunismo ético onde todos se sentem inseridos na comunidade participantes do Reino de Deus. A proposta de Reino de Deus só pode ser alcançada pela partilha equânime e benfazeja na comunidade. Em Marcos 8:2 a expressão “vieram de muito longe” dá a entender que essa partilha se estende aos pagãos que diligentemente participavam das pregações de Jesus. Essa expressão representa que a idéia ética da partilha é algo que extrapola os círculos de convivência judaico e inaugura uma perspectiva nova em Israel: a da inclusão do pagão até memso em suas necessidades mais primordiais. Daí a mensagem teológica de Marcos estruturar toda sua mensagem numa práxis. Nesse evangelho a práxis assume características significativas propondo que os que estabelecem do Reino de Deus é cada um daquele que assume a mensagem de Jesus como correta.

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